Quando usar
Ao escolher entre dP eletrônico e transmissor convencional com capilares; ao verificar se uma malha de nível, interface, densidade ou vazão atende à exatidão da especificação do projeto; ao decidir o que de fato compensa — classe de exatidão melhor, URL menor ou faixa de temperatura mais estreita; e ao montar o orçamento de incerteza de uma placa de orifício pela ISO 5167-2.
O erro mora em unidade de pressão, fixado pelo URL
A folha de dados declara a exatidão do transmissor em porcentagem, mas a física por trás é um erro absoluto em pressão, fixado pelo limite superior do sensor. Um sensor de 2000 mbar declarado em 0,1 % do URL erra 2 mbar esteja ele calibrado para 2000 mbar ou para 200 mbar. Calibrar um span mais estreito não diminui o erro; só transforma o mesmo erro numa porcentagem maior.
Por isso a ferramenta trabalha internamente em pascal, converte cada entrada a partir da única unidade de pressão global escolhida na tela e só converte de volta no final. Uma unidade só para todos os campos é decisão de projeto: misturar bar e mbar entre URL e span é o erro clássico de mil vezes.
dP eletrônico contra célula convencional
No dP eletrônico dois transmissores independentes ficam nas tomadas de alta e de baixa pressão e o eletrônico os subtrai. Cada um erra sobre o próprio URL, e como os dois precisam comportar a pressão estática inteira, esse URL costuma ser muito maior que o span diferencial. Os dois erros se compõem — por RSS ou soma linear — e a ferramenta informa qual sensor domina. Quando as contribuições estão equilibradas, melhorar só um dos sensores rende pouco.
No dP convencional uma única célula enxerga só o diferencial. A exatidão base é declarada sobre o span calibrado, mas a maioria das folhas de dados acrescenta uma regra de turndown na forma A[%span] = a + k·TD acima de um limite declarado. Reescrita em unidade de pressão, ela vale a·span + k·URL, e a ferramenta adota o maior entre a exatidão base e a regra. O efeito térmico usa a forma de dois termos, uma parcela sobre o URL e outra sobre o span. Nos dois arranjos o térmico é escalado por m = 1 no modo banda, ou por |T_processo − T_ref|/ΔT_ref quando o coeficiente é declarado por intervalo de temperatura.
Do erro de pressão para nível, densidade e vazão
O erro de pressão só vira decisão quando expresso na grandeza medida. Em nível, h = ΔP/(ρ·g): o erro em milímetros é o mesmo no fundo e no topo da faixa, e a incerteza da densidade do líquido entra na razão de um para um por cima dele. (Quando se escolhe um sensor sem contato, a pergunta passa a ser geométrica — veja a posição de instalação de medidor de nível radar.) Em densidade, ρ = ΔP/(g·H): o divisor g·H é pequeno, porque H fica tipicamente entre 1 e 3 m, o que faz desta a aplicação mais exigente — e a coluna estática do fluido costuma suprimir um zero muito maior que a faixa útil.
Em vazão, Q ∝ √ΔP divide o erro relativo por dois, mas o ΔP cai com o quadrado da vazão. Com uma célula convencional de URL 1000 mbar calibrada em 250 mbar (exatidão base de 0,1 % do span, térmico de 0,05 % do URL + 0,1 % do span), o total dá 0,79 mbar. Ao longo da faixa, numa placa de orifício com β = 0,65 pela ISO 5167-2, a incerteza combinada de vazão vai de 0,69 % a 100 % de Qmáx para 0,74 % a 70 %, 0,92 % a 50 %, 1,60 % a 33 % e 2,62 % a 25 %. Só a parcela do transmissor cresce de 0,16 % para 2,53 % — a lei do 1/Q² em números. O medidor de vazão eletromagnético não tem raiz quadrada no sinal, e por isso é a alternativa usual quando a rangeabilidade é larga.
O modo ISO 5167-2
Para placa de orifício (a lição de placa de orifício trata do elemento em si) a ferramenta pode decompor a incerteza de vazão nas parcelas da ABNT NBR ISO 5167-2:2011. O u(C) vem da cláusula 5.3.3.1 em função de β, com as duas adições aritméticas que a norma prevê para tubo pequeno e Reynolds baixo; o u(ε) vale 3,5·ΔP/(κ·p₁) em gás e exatamente zero em líquido, avaliado ponto a ponto porque também varia com o ΔP. As incertezas dos diâmetros do orifício e do tubo são pesadas por coeficientes de sensibilidade derivados da própria equação de vazão, 2/(1−β⁴) e 2β⁴/(1−β⁴).
Os limites da cláusula 5.3.1 — d ≥ 12,5 mm, 50 ≤ D ≤ 1000 mm, 0,10 ≤ β ≤ 0,75 e o Reynolds mínimo que depende do tipo de tomada — são verificados explicitamente. Fora deles a incerteza da norma não se aplica e a ferramenta acusa erro; com o Re_D em branco ela declara a aplicabilidade como não avaliada, e não como aprovada. Se faltar o u(C), o orçamento está incompleto e o veredito fica indefinido, seguindo o GUM: parcela desconhecida não é parcela nula.
O que esta ferramenta não cobre
O resultado é exatidão referencial mais efeito térmico. Efeito de pressão estática, estabilidade de longo prazo, posição de montagem, efeito da alimentação e, no dP eletrônico, o erro de coluna estática entre tomadas em elevações diferentes ficam de fora, assim como os efeitos de perna úmida e de selo e a incerteza da distância H entre tomadas em densidade. A ferramenta não embute dado de fabricante: cada coeficiente é lido pelo engenheiro na folha de dados do instrumento. Em vazão ela não dimensiona o elemento primário nem calcula o coeficiente de descarga — só a incerteza dele; para isso, siga o passo a passo de como calcular placa de orifício.
Fórmulas e fundamentos
A_Diff = comp(A_HP·URL_HP/100, A_LP·URL_LP/100) | T_Diff = comp(T_HP·URL_HP/100, T_LP·URL_LP/100) · m comp é RSS, √(Σx²), ou a soma linear Σx para pior caso. A diferença é feita por subtração no eletrônico, então o erro de cada sensor escala com o próprio URL — nunca com o span diferencial.
TD = URL/span | A_base = a_base·span | A_td = a·span + k·URL (se TD > limite) | A_Diff = máx(A_base, A_td) A forma de folha de dados A[%span] = a + k·TD reescrita em unidade de pressão. Acima do turndown declarado a regra governa e o erro passa a ser proporcional ao URL da célula. No modo "direta" a exatidão no span calibrado é informada pronta e nenhuma regra é aplicada.
T_Diff = (t_URL·URL + t_span·span) · m A forma universal de dois termos para célula única: uma parcela proporcional ao URL (deriva de zero) e outra proporcional ao span (deriva de span).
banda: m = 1 | modo ΔT: m = |T_processo − T_ref| / ΔT_ref No modo banda o coeficiente já vem fechado para a faixa de temperatura da folha de dados; no modo ΔT, um coeficiente declarado "por 28 °C" ou "por 10 K" é escalado pelo afastamento real em relação à temperatura de referência.
E_total = comp(A_Diff, T_Diff) | part_T = T_Diff² / (A_Diff² + T_Diff²) A participação (quadrática no RSS, linear na soma) diz para onde vai o dinheiro: quando o térmico domina, uma classe referencial melhor quase não compra nada.
nível: δh = E/(ρ·g) | densidade: δρ = E/(g·H) | vazão: δQ/Q = ½·E/ΔP, ΔP = span·(Q/Qmáx)² Nível e densidade têm sensibilidade 1 e erro absoluto constante na faixa. Vazão tem sensibilidade ½, mas o ΔP cai com o quadrado da vazão, então o erro relativo de vazão cresce com 1/Q². g = 9,80665 m/s².
u(Q) = comp(u(C), u(ε), 2/(1−β⁴)·u(d), 2β⁴/(1−β⁴)·u(D), ½·E/ΔP, ½·u(ρ)) u(C) pela cláusula 5.3.3.1: (0,7 − β) % para β < 0,20, 0,5 % para 0,20–0,60, (1,667β − 0,5) % acima de 0,60, mais adições aritméticas para D < 71,12 mm e para β > 0,5 com Re_D < 10 000. u(ε) = 3,5·ΔP/(κ·p₁) % em gás, zero em líquido.
Normas e métodos
- ABNT NBR ISO 5167-2:2011 — placas de orifício; cláusula 5.3.1 (limites de uso) e 5.3.3 (incerteza de C e de ε)
- ISO 5167-1 — princípios gerais de medição de vazão por elementos deprimogênios
- JCGM 100:2008 (GUM) — composição de incertezas; parcela desconhecida não é parcela nula
- Folhas de dados dos instrumentos — todo coeficiente de exatidão, térmico e de turndown é entrada lida dos dados do fabricante, nenhum vem embutido
Valores típicos de referência
| Grandeza | Faixa típica | Observação |
|---|---|---|
| Exatidão referencial de um transmissor de dP moderno | 0,04 – 0,1 % do span | normalmente degrada acima de um turndown declarado |
| Turndown em que a regra de exatidão costuma entrar | 5:1 – 10:1 | leia na folha de dados; a ferramenta aplica só o que for informado |
| Crescimento do erro em vazão frente ao fundo de escala | 4× a 50 % · 16× a 25 % de Qmáx | só a parcela do transmissor, de ΔP ∝ Q² |
| u(C) de placa de orifício, 0,20 ≤ β ≤ 0,60 | 0,5 % | ABNT NBR ISO 5167-2:2011, 5.3.3.1 |
| Aplicabilidade da ISO 5167-2 para placas | d ≥ 12,5 mm · 50 ≤ D ≤ 1000 mm · 0,10 ≤ β ≤ 0,75 | Re_D ≥ 5000, e ≥ 16 000·β² para β > 0,56 (tomadas de canto e D-D/2) |
| Erro de nível por 1 mbar com ρ = 1000 kg/m³ | ≈ 10,2 mm | δh = 100 Pa / (1000 · 9,80665) |
Exemplo resolvido
Nível em vaso pressurizado com dP eletrônico (LT-01)
Entradas
- Arranjo
- dP eletrônico (2 sensores) —
- URL de cada sensor
- 2000 mbar
- Exatidão referencial, HP e LP
- 0,1 % URL
- Efeito térmico, HP e LP (banda)
- 0,2 % URL
- Span calibrado
- 0 – 500 mbar
- Densidade do líquido
- 900 kg/m³
- Requisito
- 2 % do span
Resultados
- Parcela de exatidão referencial A_Diff
- 2,83 mbar
- Parcela térmica T_Diff
- 5,66 mbar
- Erro total (RSS)
- 6,32 mbar
- Total em % do span
- 1,26 %
- Erro de nível / faixa de nível
- ± 71,7 / 5665 mm
- Turndown URL/span
- 4,0 :1
- Participação térmica no erro
- 80 %
- Veredito
- Atende 1,26 % ≤ 2 %
A malha atende ao requisito de 2 % com 1,26 % do span, o que equivale a ±72 mm de nível — constantes ao longo de toda a faixa de 5,67 m, de modo que perto do fundo representam uma fração muito maior do que há no vaso. O número decisivo é a participação térmica de 80 %: a exatidão referencial contribui só com 2,83 mbar. Para melhorar esta malha, estreite a faixa de temperatura de processo ou escolha sensores de URL menor; comprar classe de exatidão melhor quase não adianta. Pressão estática, estabilidade de longo prazo, posição de montagem e a variação de densidade do líquido estão fora deste número e precisam caber na folga que sobra.
Erros comuns
- Aplicar o % de um dP eletrônico sobre o span diferencial. Cada sensor erra sobre o próprio URL: dois sensores de 2 bar medindo 500 mbar carregam quatro vezes o erro que uma leitura em "% do span" sugere.
- Comprar classe de exatidão melhor quando o térmico domina. No exemplo resolvido 80 % do erro é térmico — dobrar a exatidão referencial leva o total de 1,26 % para cerca de 1,17 % do span.
- Calibrar uma célula de faixa larga num span estreito e manter a exatidão base. Acima do turndown declarado a regra da folha de dados a substitui, e o erro passa a ser proporcional ao URL.
- Declarar a exatidão de vazão só no fundo de escala. Com ΔP ∝ Q², a parcela do transmissor a 25 % de Qmáx é 16 vezes maior que a 100 %.
- Tratar incerteza desconhecida como zero. Sem u(C) o RSS perde o termo dominante e o número melhora — a ferramenta devolve o veredito como indefinido em vez disso.
- Deixar o Re_D em branco e ler "dentro da ISO 5167-2". Sem Reynolds a aplicabilidade da norma não é avaliada, e a ferramenta diz isso.
Perguntas frequentes
Por que o dP eletrônico é menos exato que o transmissor convencional em spans pequenos?
Porque cada sensor erra sobre o próprio URL e os dois erros se somam. Os dois sensores precisam ser dimensionados para a pressão estática inteira mais o diferencial, então o URL deles é muito maior que o span. A célula convencional enxerga só o diferencial e erra, no máximo, sobre o próprio URL. O dP eletrônico ganha em tempo de resposta e em eliminar capilares, não em exatidão em span pequeno.
Devo compor as parcelas por RSS ou por soma linear?
O RSS supõe parcelas aleatórias independentes e é o "erro total provável" usual das folhas de dados. A soma linear é o pior caso — todas as parcelas no limite e com o mesmo sinal. A ferramenta oferece as duas; RSS é o padrão.
Quanto o turndown atrapalha?
Em unidade de pressão o erro é fixado pelo URL. Estreitar o span sem baixar o URL sobe o erro em % do span na mesma proporção. Na célula única, acima do turndown declarado, a regra do fabricante A = a + k·TD substitui a exatidão base.
Por que a exatidão de vazão piora tanto em vazão baixa?
Q é proporcional a √ΔP, o que divide o erro relativo por dois (sensibilidade ½), mas o ΔP cai com o quadrado da vazão. A 50 % de Qmáx a parcela do transmissor vale 4 vezes o valor de fundo de escala; a 25 %, 16 vezes. É a razão física do limite prático de rangeabilidade dos elementos deprimogênios.
O que o β muda na incerteza da placa de orifício?
A incerteza do diâmetro do orifício entra com peso 2/(1−β⁴) e a do tubo com 2β⁴/(1−β⁴). Em β = 0,65 esses pesos valem 2,43 e 0,43: medir bem o orifício compensa muito mais que medir bem o tubo. O β também define o próprio u(C), que sobe de 0,5 % para (1,667β − 0,5) % acima de β = 0,60.
O resultado inclui efeito de pressão estática e estabilidade?
Não. A ferramenta calcula exatidão referencial mais efeito térmico. Efeito de pressão estática, estabilidade de longo prazo, posição de montagem, efeito da alimentação e, no dP eletrônico, a coluna estática entre tomadas em elevações diferentes ficam de fora, e a ferramenta declara esse escopo em toda execução.
Glossário
- URL (limite superior de faixa)
- A maior pressão para a qual o sensor pode ser calibrado. Erros declarados em % do URL escalam com ele, não com o span calibrado.
- Span
- Diferença entre os valores superior e inferior calibrados (URV − LRV).
- Turndown (TD)
- Razão URL/span — o quanto o sensor foi rebaixado de faixa.
- dP eletrônico (EdP)
- Dois sensores de pressão, um em cada tomada, com o diferencial calculado por subtração no eletrônico em vez de numa célula única.
- Exatidão referencial
- Erro do transmissor nas condições de referência — linearidade, histerese e repetibilidade — como declarado na folha de dados.
- Efeito térmico
- Deriva de zero e de span causada pelo afastamento da temperatura ambiente ou de processo em relação à referência de calibração.
- RSS
- Raiz da soma dos quadrados, a composição de incertezas independentes usada no "erro total provável".
- Coeficiente de sensibilidade
- Derivada parcial da grandeza medida em relação a uma entrada: 1 para nível e densidade, ½ para vazão através de √ΔP.
- β (relação de diâmetros)
- Razão entre o diâmetro do orifício e o diâmetro interno do tubo, d/D.
- Fator de expansibilidade ε
- Correção da compressibilidade do gás através do orifício; vale exatamente 1 em líquidos, então a incerteza dele ali é genuinamente zero.