Elétrica

Corrente de pico de curto-circuito pela IEC 60909 — a fórmula de kappa κ = 1,02 + 0,98·e^(−3R/X), explicada e calculada

A corrente de pico de curto-circuito é ip = κ·√2·Ik″, e κ depende só da relação R/X da impedância equivalente: κ = 1,02 + 0,98·e^(−3R/X). Num quadro de 440 V alimentado por trafo de 1000 kVA, isso dá κ = 1,619 e ip = 52,6 kA — o número que a capacidade de estabelecimento do disjuntor e a crista suportável do barramento precisam cobrir.

A resposta: ip = κ·√2·Ik″ e κ = 1,02 + 0,98·e^(−3R/X)

A IEC 60909-0 calcula a corrente de pico de curto-circuito ip — o maior valor instantâneo da corrente de falta, atingido no primeiro semiciclo — a partir da corrente de curto-circuito simétrica inicial Ik″ e de um fator de pico κ (kappa) adimensional:

ip = κ · √2 · Ik″
κ  = 1,02 + 0,98 · e^(−3·R/X)

Em ASCII puro, do jeito que se digita numa busca ou numa planilha:

kappa = 1.02 + 0.98*exp(-3*R/X)
ip    = kappa*sqrt(2)*Ik''

R/X é a relação resistência/reatância da impedância equivalente de curto-circuito no ponto de falta — a soma de tudo o que está entre a fonte e a falta, referida à tensão da falta. κ não depende de mais nada: nem do módulo da corrente, nem do nível de tensão.

Por que o pico pesa mais do que parece

Ik″ é um valor eficaz. Ele dimensiona a interrupção do disjuntor (Icu, Ics) e o esforço térmico dos condutores. O pico ip dimensiona outra coisa: as forças mecânicas, proporcionais ao quadrado da corrente instantânea. Três verificações dependem dele:

  • Capacidade de estabelecimento do disjuntor (Icm). O disjuntor que fecha sobre uma falta precisa aguentar o primeiro pico. A IEC 60947-2 amarra Icm a Icu por uma relação n que depende do nível de corrente — para 20 kA < Icu ≤ 50 kA, n = 2,2, com fator de potência de ensaio 0,2.
  • Crista suportável de barramentos e conjuntos (Ipk). A IEC 61439-1 exige que o conjunto declare uma corrente suportável de crista nominal, que precisa cobrir o ip no barramento.
  • Suportes, isoladores e junções de barramento blindado, cujo esforço eletrodinâmico é definido pelo ip, não pelo Ik″.

Um quadro pode passar na verificação de Icu e ainda falhar no pico quando o X/R da rede é maior que o X/R em que o disjuntor foi ensaiado. É o que acontece no exemplo resolvido abaixo.

De onde vem o κ: a componente contínua

Quando ocorre uma falta num circuito indutivo, a corrente não pode saltar instantaneamente. Por isso a corrente de falta começa com uma componente contínua (DC) que decai com a constante de tempo do circuito, τ = L/R = X/(ωR). O primeiro pico soma a crista CA (√2·Ik″) com o que resta dessa componente após cerca de meio ciclo.

  • Com R/X = 0 (reatância pura), a componente contínua não decai e o pico chega ao dobro da crista CA: κ = 2,0.
  • Com um circuito puramente resistivo não há deslocamento: κ tende a 1,02 (o piso da fórmula).
  • Tudo o que fica entre os dois extremos é coberto pelo termo exponencial e^(−3R/X), que é o ajuste da IEC 60909 à curva exata do transitório de um circuito R-L série.

X/R maior significa decaimento mais lento, primeiro pico maior e κ maior.

κ para relações R/X típicas

Os valores abaixo saem direto de κ = 1,02 + 0,98·e^(−3R/X):

R/XX/RκSituação típica
0,0250,01,943Transmissão em AT, terminais de gerador
0,0520,01,863MT perto de transformadores grandes
0,0714,31,814Barramentos de MT
0,1010,01,746Fonte da concessionária em MT
0,156,671,645Terminais de BT de um trafo de distribuição grande
0,205,001,558QGBT
0,254,001,483Quadro de BT após alimentador curto
0,303,331,418Subdistribuição em BT
0,502,001,239Circuitos terminais de BT, cabos longos
1,001,001,069Cabos de seção pequena, faltas resistivas

κ = 1,8 corresponde a R/X ≈ 0,076 (X/R ≈ 13,1). κ = 2,0 é o teto teórico.

Exemplo resolvido: rede de 500 MVA, trafo de 1000 kVA, quadro de 440 V

As entradas são as do caso A da suíte de verificação da LOGOS contra o pandapower:

  • Concessionária: S″kQ = 500 MVA em 13,8 kV, X/R = 10.
  • Transformador: Sr = 1000 kVA, uk = 6 %, X/R = 6, secundário 440 V.
  • Falta: trifásica, no barramento de 440 V, caso máximo (c = 1,05, sistema de BT com tolerância de +6 %).

Todas as impedâncias são referidas a U = 440 V.

1 — Impedância da rede. A fonte está em média tensão, então usa cQ = 1,10:

Z_Q = cQ · U² / S″kQ = 1,10 · 440² / 500 MVA = 0,4259 mΩ
R_Q = 0,0424 mΩ   X_Q = 0,4238 mΩ   (X/R = 10)

2 — Impedância do transformador e K_T.

Z_T = uk · U² / Sr = 0,06 · 440² / 1000 kVA = 11,616 mΩ
R_T = 1,9097 mΩ   X_T = 11,4580 mΩ   (X/R = 6)
x_T = uk · X/Z = 0,06 · 6/√37 = 0,0592 pu
K_T = 0,95 · cmax / (1 + 0,6 · x_T) = 0,95 · 1,05 / (1 + 0,6 · 0,0592) = 0,9633
Z_TK = K_T · Z_T → R = 1,8396 mΩ, X = 11,0374 mΩ

3 — Impedância equivalente e R/X.

R_k = 0,0424 + 1,8396 = 1,8819 mΩ
X_k = 0,4238 + 11,0374 = 11,4612 mΩ
Z_k = 11,6147 mΩ   →   R/X = 0,1642   (X/R = 6,09)

4 — Ik″, κ e ip.

Ik″ = c · U / (√3 · Z_k) = 1,05 · 440 / (√3 · 11,6147 mΩ) = 22,97 kA
κ   = 1,02 + 0,98 · e^(−3 · 0,1642) = 1,619
ip  = 1,619 · √2 · 22,97 = 52,58 kA

A corrente mínima do mesmo barramento (cmin = 0,95, sem K_T, fonte com cQmin = 1,00) é Ik″mín = 20,11 kA.

Esses números saíram do mesmo módulo IEC 60909 que roda o cálculo de curto-circuito da LOGOS em produção. Para este caso, o pandapower 3.5.4 (calc_sc, IEC 60909, ip=True) devolve Ik″ = 22,965 kA e ip = 52,576 kA — os mesmos valores até a terceira casa. A comparação, com mais quatro casos, está documentada na página de validação.

O que o resultado significa para o equipamento. O quadro precisa de capacidade de interrupção acima de 22,97 kA, então a próxima faixa padronizada é Icu = 25 kA. Com n = 2,2, esse disjuntor tem Icm = 55 kA, contra um ip de 52,58 kA: passa, com 4,6 % de folga. Repare por que a folga é curta: o disjuntor foi ensaiado com fator de potência 0,2 (X/R ≈ 4,9), e este barramento tem X/R = 6,09. O barramento precisa declarar Ipk ≥ 52,6 kA.

Some 3.000 A de corrente de rotor bloqueado de motores em operação e o quadro muda: I″kM = 1,05 · 3,0 kA = 3,15 kA, o pico dos motores usa κM = 1,3 próprio, e o ip sobe para 58,37 kA — acima dos 55 kA de capacidade de estabelecimento, com o Ik″ (26,12 kA) também acima dos 25 kA de Icu.

Redes malhadas: métodos A, B e C

A abordagem de laço único acima é exata para uma rede radial, em que todos os elementos entre a fonte e a falta estão em série. Quando a falta é alimentada por uma rede malhada, a impedância equivalente vem de uma redução complexa da rede, e o R/X dela deixa de descrever o transitório de cada ramo. A IEC 60909-0 oferece três caminhos para obter κ nesse caso:

  • Método A — relação uniforme. κ sai do menor R/X (maior X/R) entre os ramos relevantes: os que conduzem correntes parciais de curto no nível de tensão da falta e os transformadores adjacentes à falta. Simples e normalmente conservador.
  • Método B — relação no ponto de falta. κ_b é calculado com o R/X da impedância equivalente Z_k na falta e multiplicado por 1,15 para cobrir o erro dessa redução: κ = 1,15·κ_b. O produto não precisa passar de 1,8 em BT nem de 2,0 em MT/AT, e o fator 1,15 é dispensável se R/X ficar abaixo de 0,3 em todos os ramos.
  • Método C — frequência equivalente. A rede é resolvida de novo com as reatâncias a uma frequência equivalente fc = 20 Hz para sistemas de 50 Hz (24 Hz para 60 Hz). Com Z_c = R_c + jX_c dessa rodada, R/X = (R_c/X_c)·(fc/f), e κ sai da fórmula de sempre. O método C é o mais preciso dos três e é o que os programas de análise de redes costumam implementar.

Aplicado ao caso resolvido só para ilustrar, o método B daria 1,15 · 1,619 = 1,862, limitado a 1,8 em BT — ip = 58,46 kA em vez de 52,58 kA. Num circuito radial esses 11 % são pura margem, e é por isso que a norma reserva o método B para redes malhadas.

Erros comuns

  1. Usar o X/R do transformador em vez do R/X equivalente. Nos terminais do trafo a diferença aqui é pequena (κ = 1,614 contra 1,619), porque o trafo domina. Depois de um cabo, não: com 30 m de 3 × (1 × 240 mm²), o X/R equivalente cai para 4,65, κ para 1,534 e o ip para 46,15 kA; usar o X/R = 6 do trafo dá 48,56 kA (+5 %). Depois de 100 m, X/R = 3,21, κ = 1,405 e ip = 35,83 kA, contra 41,16 kA com o valor do trafo (+15 %).
  2. Esquecer o K_T. A IEC 60909-0:2016 (6.3.3) aplica o fator de correção K_T aos transformadores de rede no caso máximo. Sem ele, o exemplo dá Ik″ = 22,15 kA em vez de 22,97 kA — 3,5 % abaixo, do lado inseguro. O K_T não se aplica ao caso mínimo.
  3. Confundir ip com √2·Ik″. √2·Ik″ é a crista da corrente simétrica: 32,48 kA no exemplo. O pico verdadeiro é 52,58 kA. Ignorar o κ subestima o esforço mecânico em 38 %.
  4. Usar κ = 1,8 (ou 2,0) fixo. Serve como limite superior rápido em muitos quadros de BT, mas superdimensiona Icm e Ipk onde o X/R é moderado (+11 % no exemplo) e pode ficar contra a segurança onde o X/R passa de 13 — barramentos de MT perto de trafos grandes ou geradores.
  5. Colocar X/R no expoente. A fórmula usa R/X. Com X/R = 6,09 no expoente, κ ≈ 1,02 e o ip cai para 33,1 kA — 37 % abaixo do pico real, do lado inseguro.
  6. Aplicar o κ da rede à contribuição de motores. Motores têm relação de impedância própria: a IEC 60909-0 dá R_M/X_M = 0,42 (κ_M = 1,3) para grupos de motores de BT e 0,10 (κ_M = 1,75) ou 0,15 (κ_M = 1,65) para motores de MT, conforme a potência por par de polos. Em rede radial, os picos parciais se somam.

O que o cálculo de curto-circuito da LOGOS faz, e o que não faz

A calculadora de curto-circuito da LOGOS monta o caminho de impedâncias do barramento escolhido até a fonte da concessionária — Skq da rede, transformadores com K_T, cabos referidos à tensão do barramento — e devolve Ik″ (máximo e mínimo), ip com κ calculado a partir do R/X equivalente, e as correntes bifásica e fase-terra. Com a contribuição de motores ligada, a LOGOS soma I″kM = c·ΣI_RB dos motores alimentados por aquele barramento, com κ_M = 1,3 em BT e 1,75 em MT, e soma os picos parciais. A física roda numa função versionada no servidor; o memorial de cálculo sai em Word (.docx).

O que a LOGOS não faz:

  • Redes malhadas. O caminho é radial; os métodos A, B e C não estão implementados. Para anel, trafos em paralelo com secundários interligados ou MT malhada, use um programa de análise de redes.
  • Faltas próximas a geradores. A fonte é modelada como alimentação da concessionária (falta distante de gerador). Geração local e o decaimento da componente CA não são modelados.
  • Correntes que decaem para a interrupção. A contribuição de motores entra pelo valor inicial; os fatores μ e q da corrente de interrupção Ib, a componente contínua i_DC num instante dado e a corrente térmica equivalente I_th não são calculados. Isso é conservador para a capacidade de interrupção, mas não é um estudo no domínio do tempo.
  • Cabos dos motores. A impedância entre o barramento e os motores ligados em painéis intermediários é desprezada, o que superestima a contribuição deles.

A comparação com o pandapower cobre o lado da rede (Ik″, ip, correntes bifásica e mínima); a contribuição de motores segue a expressão simplificada da norma e não faz parte desse benchmark. Como qualquer ferramenta de cálculo, o resultado apoia o julgamento do engenheiro; a responsabilidade técnica do projeto continua com quem assina a ART.

Normas e métodos

  • IEC 60909-0:2016 — Short-circuit currents in three-phase a.c. systems, Part 0: Calculation of currents
  • IEC TR 60909-1:2002 — Fatores para o cálculo das correntes de curto-circuito (base de c, κ e K_T)
  • IEC TR 60909-4 — Exemplos de cálculo de correntes de curto-circuito
  • IEC 60947-2 — Disjuntores: capacidade de estabelecimento em curto-circuito Icm e a relação n = Icm/Icu
  • IEC 61439-1 — Conjuntos de manobra e comando de baixa tensão: corrente suportável de crista Ipk

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula de kappa na IEC 60909?

κ = 1,02 + 0,98·e^(−3·R/X), que em ASCII se escreve kappa = 1.02 + 0.98*exp(-3*R/X). R/X é a relação entre resistência e reatância da impedância equivalente de curto-circuito no ponto de falta. A corrente de pico é ip = κ·√2·Ik″. κ tende a 2,0 quando R/X tende a zero e a 1,02 quando o circuito é puramente resistivo.

Na fórmula de kappa entra R/X ou X/R?

R/X. O expoente é −3·R/X. Digitar X/R por engano transforma um barramento de BT típico, com X/R ≈ 6, num expoente de cerca de −18: κ despenca para 1,02 e o pico fica subestimado em cerca de 37 % — o lado inseguro. No exemplo resolvido, esse erro dá 33,1 kA em vez de 52,6 kA.

Posso usar κ = 1,8 fixo em todo quadro de BT?

É conservador na maioria dos quadros de BT, mas não sai de graça. κ = 1,8 pressupõe X/R ≈ 13, que um barramento de BT raramente atinge. No exemplo de 1000 kVA, κ vale 1,619; com 1,8 fixo você exige 58,5 kA de capacidade de estabelecimento em vez de 52,6 kA — 11 % a mais. Depois de alimentadores longos a diferença cresce, e em MT perto de trafos grandes ou geradores κ pode passar de 1,8.

Qual a diferença entre Ik″ e ip?

Ik″ é o valor eficaz da componente simétrica inicial e governa a capacidade de interrupção (Icu, Ics) e os efeitos térmicos. ip é o valor instantâneo máximo do primeiro semiciclo, com a componente contínua incluída, e governa o esforço mecânico: a capacidade de estabelecimento Icm dos disjuntores e a corrente suportável de crista Ipk de barramentos e suportes.

Quando preciso do método B ou do método C da IEC 60909?

Só quando a falta é alimentada por uma rede malhada, em que um único R/X em série não descreve o circuito. Numa rede radial (não malhada), alimentada por uma fonte através de impedâncias em série, κ sai do R/X da impedância total, e os picos parciais de fontes radiais em paralelo, como motores, se somam.

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