Quando usar
Ao montar a lista de instrumentos de uma linha de água, efluente, polpa ou produto químico e precisar saber se o medidor pode ficar na bitola da linha; quando o processo informa vazão mínima e máxima e as duas pontas precisam ser conferidas; e ao revisar uma proposta de fornecedor que reduz a bitola do medidor em relação ao tubo.
Quem dimensiona o medidor é a velocidade, não a vazão
O medidor eletromagnético mede a tensão induzida num líquido condutivo que atravessa um campo magnético. Essa tensão é proporcional à velocidade média, não à vazão volumétrica. Os mesmos 60 m³/h dão 2,1 m/s num sensor DN100 e 0,53 m/s num DN200 — e o sensor maior, com a mesma vazão, trabalha com um sinal quatro vezes mais fraco.
Por isso o primeiro passo da ferramenta é a equação v = (Q/3600)/(π·(D/1000)²/4), avaliada nas duas pontas da operação. A velocidade na linha usa o diâmetro interno real do catálogo de tubos; a velocidade no medidor usa o DN nominal, que é a bitola que de fato define o sensor. Cada valor é classificado contra duas faixas: a faixa recomendada do tipo de fluido e o envelope mensurável de 0,3–10 m/s. Dentro da faixa recomendada o resultado é “OK”; entre a faixa e o envelope é “Atenção”; fora do envelope é “Reprovado”.
Três faixas, e a rangeabilidade que cada uma comporta
A ferramenta trabalha com três tipos de fluido tirados da prática de fabricantes. Líquido limpo usa 1,5–3,0 m/s. Serviço abrasivo mantém o mesmo piso, mas baixa o teto para 2,0 m/s para poupar o liner. Serviço incrustante sobe o piso para 2,0 m/s para que o escoamento limpe os eletrodos.
A consequência passa despercebida com facilidade. Numa bitola fixa a velocidade é proporcional à vazão, então a razão de velocidades entre Qmáx e Qmín é exatamente a rangeabilidade. A faixa de fluido limpo comporta no máximo 2:1, a de incrustante 1,5:1, a de abrasivo 1,33:1 — e só se existir uma bitola do tamanho exato. Uma linha de 4” com 30–60 m³/h mostra isso: DN100 dá 1,06–2,12 m/s, DN90 dá 1,31–2,62 m/s, DN80 dá 1,66–3,32 m/s. A rangeabilidade é 2,0, a razão da faixa é 2,0, e ainda assim nenhum tamanho da série fecha as duas pontas. A ferramenta propõe o DN80 como o mais próximo, rotula a troca como melhora parcial e avisa que o limite é a rangeabilidade, não a bitola.
A linha comanda; a varredura propõe o remédio
Por padrão o medidor é instalado na bitola da linha. A ferramenta então varre toda a série de DN, do DN15 ao DN2000, e pontua cada bitola com uma penalidade em que ficar abaixo do piso pesa três vezes mais que passar do teto. Velocidade baixa é o que mata a medição; velocidade alta é desgaste que se monitora.
Bitola menor é proposta quando de fato reduz essa penalidade. Bitola maior só é proposta com excesso material: a velocidade máxima na bitola da linha precisa passar do teto em mais de 30 % (3,9 m/s em fluido limpo) ou sair do envelope de 10 m/s. Uma linha de 4” com 266 m³/h, sem vazão mínima informada, escoa a 9,4 m/s em DN100, e a ferramenta propõe DN200 a 2,35 m/s. Entre o teto e esse limite a resposta é um aviso de desgaste, não um expansor.
Quando a varredura não acha nada melhor, a ferramenta diz. O silêncio seria lido como “está tudo bem”; um “nenhuma bitola da série traz a velocidade para a faixa” explícito diz ao engenheiro que o problema é a faixa de operação.
O que uma troca de bitola custa
Instalar o medidor numa bitola diferente da linha acrescenta dois redutores concêntricos, o trecho reto que o fabricante exige em torno do sensor (aqui ≥ 5×DN a montante e ≥ 2×DN a jusante, com o tubo sempre cheio) e uma perda de carga localizada nos redutores que é permanente e precisa entrar no dimensionamento da bomba da linha, não só na folha de dados do instrumento. É por isso que uma redução nunca dá veredito “OK”: mesmo quando traz as duas pontas para a faixa, é uma decisão com preço, e o veredito fica em “Atenção” até alguém aceitá-la.
O que esta ferramenta não cobre
O dimensionamento é puramente por velocidade e bitola, para medidor eletromagnético. A ferramenta não verifica a condutividade do fluido, não escolhe material de liner nem de eletrodo, não calcula a perda de carga dos redutores, não estima a exatidão da medição numa dada vazão e não escolhe entre princípios de medição (Coriolis, vórtex, ultrassônico, pressão diferencial). Também não trata gás nem tubo parcialmente cheio. Essas verificações ficam com a folha de dados de processo e com o software de seleção do fabricante.
Se a escolha cair num medidor por pressão diferencial, o elemento primário é dimensionado na calculadora de placa de orifício pela ISO 5167 — o passo a passo de como calcular placa de orifício mostra a sequência, e a lição de placa de orifício explica a física —, enquanto o lado do transmissor é verificado na ferramenta de exatidão de transmissor de pressão diferencial, que também mostra por que uma malha de dP perde exatidão tão depressa em vazão baixa.
Fórmulas e fundamentos
v = (Q/3600) / (π·(D/1000)²/4) Q em m³/h, D em mm, v em m/s. Para a LINHA a ferramenta usa o diâmetro interno real resolvido do catálogo de tubos (material + DN + schedule/SDR); para o MEDIDOR e para cada bitola candidata usa o DN nominal em mm.
TD = Q_máx / Q_mín Numa bitola fixa a velocidade é proporcional à vazão, então a razão v(Qmáx)/v(Qmín) é igual a TD qualquer que seja o tamanho. Se TD passar da razão da própria faixa, nenhuma bitola da série segura as duas pontas.
limpo 3,0/1,5 = 2,0 | abrasivo 2,0/1,5 = 1,33 | incrustante 3,0/2,0 = 1,5 A maior rangeabilidade que cabe na faixa recomendada, e só se existir uma bitola do tamanho exato. Com a série discreta de DN, a rangeabilidade útil costuma ser menor.
pen = 3·máx(0, v_rec,mín − v_mín) + 1·máx(0, v_máx − v_rec,máx) + 1000·(excursão fora de 0,3–10 m/s) Cada DN da série recebe essa penalidade; o desempate é pela proximidade da média geométrica √(v_mín·v_máx) ao centro da faixa √(v_rec,mín·v_rec,máx). Ficar abaixo do piso pesa três vezes mais que passar do teto, porque velocidade baixa perde exatidão e velocidade alta só custa desgaste.
v_máx(DN linha) > 1,30 · v_rec,máx ou v_máx > 10 m/s Bitola menor é proposta sempre que reduz a penalidade. Bitola MAIOR que a linha só com excesso material sobre o teto — 3,9 m/s em fluido limpo, 2,6 m/s em abrasivo — porque ampliar custa dois redutores, trecho reto e perda de carga.
Q = v · π·(DN/1000)²/4 · 3600 A inversa da primeira equação, usada na tabela de faixa de vazão por DN da ferramenta a 0,3 m/s (fundo de escala mínimo), ~2,5 m/s (nominal) e 10 m/s (máximo).
Normas e métodos
- ISO 6817 — medição de vazão de líquido condutivo em conduto fechado, método eletromagnético (método e desempenho; não prescreve velocidade de dimensionamento)
- ISO 9104 — métodos de avaliação de desempenho de medidores eletromagnéticos para líquidos
- ASME B36.10M / ISO 6708 — correspondência DN ↔ NPS usada na série de bitolas
- Prática de fabricantes (Endress+Hauser Promag, Siemens SITRANS F M, Emerson Rosemount 8700) — origem das faixas de velocidade e do envelope de 0,3–10 m/s
Valores típicos de referência
| Grandeza | Faixa típica | Observação |
|---|---|---|
| Velocidade recomendada, líquido limpo | 1,5 – 3,0 m/s | o ótimo de fabricante é 2–3 m/s; a Siemens declara 1–3 m/s nominal |
| Velocidade recomendada, abrasivo (polpa, areia) | 1,5 – 2,0 m/s | o teto cai para limitar o desgaste do liner e dos eletrodos |
| Velocidade recomendada, incrustante | 2,0 – 3,0 m/s | o piso sobe para que o escoamento mantenha os eletrodos limpos |
| Envelope mensurável | 0,3 – 10 m/s | abaixo de ~0,3 m/s a exatidão degrada; alguns sensores vão a ~12 m/s |
| Maior rangeabilidade dentro de uma faixa | 2,0 (limpo) · 1,5 (incrustante) · 1,33 (abrasivo) | teto teórico; a série discreta de DN costuma dar menos |
| Vazão em DN100 a 0,3 / 2,5 / 10 m/s | 8,5 / 70,7 / 283 m³/h | Q = v·A·3600 com D = 100 mm |
| Trecho reto em torno do medidor | ≥ 5×DN a montante · ≥ 2×DN a jusante | orientação de fabricante; o tubo precisa estar sempre cheio |
Exemplo resolvido
Água de resfriamento numa linha de 6", 45 a 80 m³/h (FT-01)
Entradas
- Tubulação da linha
- 6" aço carbono STD/40 —
- Diâmetro interno (do catálogo)
- 154,08 mm
- Vazão mínima / máxima
- 45 / 80 m³/h
- Tipo de fluido
- Limpo faixa 1,5–3,0 m/s
Resultados
- Velocidade na linha em Qmín / Qmáx
- 0,67 / 1,19 m/s
- Velocidade num medidor DN150
- 0,71 / 1,26 m/s
- Rangeabilidade Qmáx/Qmín
- 1,78 —
- Bitola proposta
- 6" → DN100 (4") redução
- Velocidade em DN100
- 1,59 / 2,83 m/s
- Veredito
- Atenção redução necessária
Na bitola da linha o medidor trabalharia abaixo do piso de 1,5 m/s em toda a faixa, então a ferramenta propõe reduzir para DN100, onde as duas pontas caem dentro da faixa (1,59 e 2,83 m/s). O veredito fica em "Atenção" de propósito: a redução resolve a velocidade, mas tem custo — dois redutores, o trecho reto em torno deles e a perda de carga — que alguém precisa aceitar. Note que o DN125 não serviria: 1,02–1,81 m/s ainda erra o piso na Qmín. Com rangeabilidade de 1,78, abaixo do teto de 2,0 da faixa de fluido limpo, existe bitola que serve; com 30–60 m³/h (TD = 2,0) numa linha de 4", não existiria.
Erros comuns
- Escolher o medidor pela vazão da tabela de catálogo sem conferir a vazão mínima. Um medidor que lê 2,8 m/s na Qmáx pode ficar a 0,7 m/s na Qmín, e a exatidão declarada na folha de dados não vale lá embaixo.
- Supor que o medidor tem sempre de ter a bitola da linha. Uma linha de 6" com 45–80 m³/h escoa a 0,7–1,3 m/s — abaixo do piso em toda a faixa. O remédio é um sensor menor, não um tubo menor.
- Inferir o DN nominal pelo diâmetro interno. Um tubo de PEAD 4" SDR 11 tem 90 mm internos, que uma regra de "DN mais próximo" lê como DN80. O DN nominal vem da bitola declarada, não da espessura da parede.
- Esperar que uma troca de bitola resolva uma rangeabilidade larga. Se Qmáx/Qmín passa da razão da faixa (2,0 em líquido limpo), toda bitola erra uma das pontas; trocar o tamanho só compra redutores. Divida a faixa entre dois medidores ou aceite a excursão por escrito.
- Esquecer o que a redução custa. Dois redutores concêntricos, o trecho reto exigido em torno deles e a perda de carga permanente precisam entrar no arranjo de tubulação e no dimensionamento da bomba.
- Especificar medidor eletromagnético sem confirmar a condutividade do líquido. O dimensionamento por velocidade não diz se o medidor consegue medir o fluido — essa é outra verificação.
Perguntas frequentes
Qual a velocidade mínima de um medidor de vazão eletromagnético?
Há dois números. O piso mensurável é de cerca de 0,3 m/s: abaixo dele a tensão induzida é tão pequena que a exatidão degrada. O piso recomendado, em que a exatidão da folha de dados é confortável, é 1,5 m/s para fluido limpo e abrasivo e 2,0 m/s para incrustante. A ferramenta marca velocidade abaixo do piso recomendado como "Atenção" e abaixo de 0,3 m/s como "Reprovado".
O medidor de vazão pode ser menor que a tubulação?
Pode, e é a forma usual de subir a velocidade quando a linha está superdimensionada para a vazão. A ferramenta mantém o medidor na bitola da linha por padrão e só propõe bitola menor quando ela realmente reduz o desvio em relação à faixa. A redução acrescenta dois redutores concêntricos, o trecho reto exigido pelo fabricante e uma perda de carga permanente.
Quando a ferramenta propõe medidor maior que a linha?
Só quando a velocidade máxima na bitola da linha passa do teto da faixa em mais de 30 % — 3,9 m/s em líquido limpo — ou do envelope de 10 m/s. Entre o teto e esse limite o medidor ainda mede; a ferramenta emite aviso de desgaste em vez de comprar um expansor.
Por que nenhuma bitola cobre toda a minha faixa de vazão?
Porque numa bitola fixa a razão de velocidades é igual à razão de vazões. A faixa de fluido limpo, 1,5–3,0 m/s, comporta no máximo 2:1; a de abrasivo, 1,5–2,0 m/s, só 1,33:1. Se Qmáx/Qmín for maior, uma das pontas sempre fica fora, qualquer que seja o tamanho. A ferramenta diz isso explicitamente em vez de propor uma troca de bitola que não resolve.
Por que as faixas de velocidade mudam para fluido abrasivo e incrustante?
Em serviço abrasivo o teto cai para 2,0 m/s porque o desgaste do liner e dos eletrodos cresce depressa com a velocidade. Em fluido incrustante o piso sobe para 2,0 m/s porque um escoamento mais rápido impede que depósitos se formem sobre os eletrodos. As duas faixas vêm da prática de fabricantes — não há norma prescritiva única.
Isto substitui o software de seleção do fabricante?
Não. A ferramenta confere velocidade, rangeabilidade e bitola na fase de projeto, antes de escolher o fornecedor. Exatidão numa dada vazão, material de liner e eletrodo, limite de condutividade e classe de pressão do sensor continuam vindo da folha de dados do fabricante.
Glossário
- Faixa recomendada de velocidade
- Intervalo de velocidade média em que o sensor trabalha com a exatidão declarada e desgaste aceitável. Depende do tipo de fluido.
- Envelope mensurável
- Limites externos (0,3–10 m/s) além dos quais o medidor deixa de medir com confiança. Sair dele dá veredito "Reprovado".
- Rangeabilidade (turndown)
- Razão entre a vazão máxima e a mínima de operação, Qmáx/Qmín.
- Bitola da linha
- DN nominal do tubo onde o medidor é instalado. Nesta ferramenta ela comanda: o medidor fica na bitola da linha a menos que a troca se justifique.
- Redução de bitola
- Instalar um medidor menor que o tubo, entre dois redutores concêntricos, para subir a velocidade dentro do sensor.
- Liner
- Revestimento não condutivo do tubo de medição do medidor eletromagnético. A taxa de desgaste dele é o que limita a velocidade em serviço abrasivo.
- Trecho reto
- Comprimento de tubo reto exigido a montante e a jusante do medidor para que o perfil de velocidade esteja desenvolvido — aqui ≥ 5×DN e ≥ 2×DN.
- DN / NPS
- Diâmetro nominal em milímetros e bitola nominal em polegadas; DN100 corresponde a NPS 4 independentemente da espessura da parede.